O frio era insuportável. Pra piorar, estávamos no meio do colonião. Madrugada em Alvorada do Sul. "Não dá prá pegar nada. Temos que chegar mais perto". Falou pra mim o cinegra encarregado das imagens da desocupação de uma fazenda ocupada pelo MST. Naquele dia, fomos presos pela PM.
O governo Lerner iniciara um procedimeno novo para coberturas de desocupações de áreas no Estado. A imprensa, ainda que informada oficialmente da ação, estaria impedida de cobrir de perto o trabalho da Polícia. O argumento era de que a presença das câmeras de TV e fotógrafos pudessem incentivar uma reação dos acampados, como se isso não fosse natural. O que talvez queriam esconder seria uma provável contra-reação da nossa polícia.
O cerco às equipes de reportagem começou ainda à noite no Batalhão de Rolândia, ponto de partida de camburões e micro-ônibus. Os carros das TV's e jornais só poderiam sair quando a última viatura tivesse ido embora. E nós ainda não sabíamos para onde iríamos. A região toda era de fazendas ocupadas. Só mais tarde, já na rodovia de acesso às estradas rurais, é que ficamos sabendo qual das áreas haveria reintegração. Uma barreira foi feita pela Polícia Rodoviária Estadual e fomos obrigados a ficar onde estávamos. Nem adiantou protestar. A fazenda era uma das maiores da região, com centenas de famílias lá dentro. O aparato montado pela Polícia grandioso. Policiais de Batalhões do Estado inteiro. Armados. O MST, também. Todos temiam o pior.
No bloqueio não podíamos ficar. Nossa equipe deu meia-volta e encontrou outra estrada rural, sem policiais. A intenção era escapar do cerco contra a imprensa. Sitiantes nos ajudaram e enfim, avistamos as primeiras viaturas e ... fumaça. "Fudeu, fudeu ... deu merda!!". Não havia para onde irmos de carro. Decidimos correr a pé mesmo. Lama no chão, mato cortando as mãos e vento forte no rosto. Nosso motorista não aguentou e pediu para ficar. O sinal de fumaça ficava cada vez mais perto. Já dava para ouvir os apitos da polícia. Mas as imagens ainda estavam longe do ideal para serem captadas. Naquele momento vimos que não dava mais para continuar no meio do mato. Cansados, com frio e com sono decidimos ir para a estrada de terra
forrada de policiais. "Vamos tentar", disse.
Uns 20 minutos de caminhada e encontramos o primeiro grupo de PM's. Viatura e sotaque do Oeste. "O quê vocês estão fazendo aqui?", disse o soldado preparando o chimarrão. "Temos autorização do Comando para estar aqui", disse com convicção. "Quem autorizou?", insistiu. Falei o nome de um oficial qualquer e por sorte, o
gaúcho não conseguiu confirmar a versão. O rádio que usava estava fora de frequência naquele ponto. "Posso continuar meu trabalho?", disse firme de novo. "Vai lá, guri".
Nessa hora já estávamos nos achando. Eu e o cinegra já estávamos comemorando o furo. Mas daí, uma nova barreira, desta vez com Bombeiros juntos. "O que é que vocês estão fazendo aqui?". "Temos autorização do Comando para estar aqui". "Autorização de quem". Falei o mesmo nome da outra vez, mas agora, o oficial não reconheceu. "Você está se referindo ao Comandante dos Bombeiros", questionou o oficial. "Ele mesmo", confirmei. "Mas
eu sou o oficial e não lembro de ter autorizado alguém da imprensa entrar aqui". Ali eu voltei a tremer e já não era mais de frio. O oficial chegou a dar
voz de prisão. Nosso equipamento foi apreendido e fomos conduzidos para dentro do camburão dos Bombeiros. Ouvimos
um monte.
No caminho, ficamos bem pertinho da sede da Fazenda. Não havia confusão. Não houve tumulto. As famílias saíram pacificamente nos caminhões do dono da área. A fumaça que vimos era das fogueiras feitas pelos PM's para se esquentar. Fomos levados de volta àquela barreira na estrada e nosso equipamento foi devolvido. Imagens? Não fizemos nenhuma. E ainda
ouvi um outro monte do meu chefe ...