Juro que tento, mas não consigo entender o fascínio que jornalistas do eixo Rio-São Paulo tem por Requião. Seja pelo governante ou pela pessoa. Bem diferente daqui, onde jornalistas do Estado inteiro tem histórias para contar sobre ele e contra ele. Requião não é um político que mira apenas o veículo o qual o jornalista representa. Ele ofende, agride e pede a cabeça de quem ousa o incomodar.
O ainda candidato a governador tinha uma frase ironicamente maravilhosa que soltava aos jornalistas quando vinha para Londrina em campanha. "Eleito governador, irei privatizar a imprensa do Paraná". Estávamos todos sob o efeito Jaime Lerner, o governador mais marketeiro e bajulador dos donos da mídia que esse Estado já viu. Requião e seu jeito franco de ser, conquistava assim a simpatia de muitos. Deixara claro a disposição de não compactuar com a política do
jabá. Dos afagos e omissão em troca de verbas publicitárias. Com o tempo, essa forma de pensar e agir custou exageros, dos dois lados. Os donos da mídia vendo problemas por todos os cantos e Requião se dizendo vítima de uma campanha difamatória da imprensa.
Mas o governador é um sujeito difícil. Amedronta pelo jeito imprevisível de agir e intimida ao usar o prestígio do cargo. E as entrevistas coletivas são o exemplo disso tudo. Quando Requião veio para Londrina para uma das inúmeras inaugurações do Jardim Botânico foi perguntado por uma colega de rádio sobre a aberração do projeto de lei enviado à Assembléia que burlaria as recomendações da Justiça contra o nepotismo. Requião queria e conseguiu manter
legalmente a mulher, irmãos e outros parentes no Palácio Iguaçu. "Governador, os críticos dizem que sua proposta é demagógica ..." e o governador calado. Na segunda vez, ele reagiu: "A senhora é casada?". "O quê?", disse ela perdida. "Então vá procurar um marido", afirmou para risada geral dos aspones. A repórter, constrangidíssima, ainda protestou. Mas fazer o quê?
Em Centenário do Sul foi ainda pior. Era lançamento de um programa estadual e a imprensa de Londrina foi em peso para o lugar. Requião acabara de virar notícia nacional por criticar a política econômica do então ministro de Fazenda Antônio Palocci. Na coletiva, um colega perguntou se o discurso significaria algum sinal de rompimento com o governo Lula o qual Requião apoiava. O governador não respondeu, a coletiva foi encerrada. O mesmo repórter foi para um canto da sala e Requião foi atrás. Com um gravador em punho, o repórter preparou a pergunta, mas não deu tempo. O governador o pegou pelo dedo, torcendo e exigindo o gravador. "Você não vai me jogar contra o meu amigo Lula".
Comigo não houve agressão física. Não por isso menos grave. Queria saber sobre a proposta de revisão de salários do professores da UEL se isso provocaria a redução de alguns benefícios. No aeroporto ele se calou. Mas no Calçadão, para onde foi em seguida, ele gritou quando me viu. "Onde já se viu um governador reduzir salário de trabalhador. Você tá pensando que eu sou moleque. Moleque é você que tem que trabalhar na feira livre". Estava com os olhos esbugalhados. O braço direito levantado com o dedo indicador apontando para mim. Parecia ódio.
Um colega PM, que fazia a guarda pessoal do governador, me disse que ele ligou na hora para o dono da TV. O número, tinha gravado na memória, não do celular, mas de cabeça mesmo. E eu fiquei desempregado mais uma vez.